quarta-feira, fevereiro 21, 2024
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Intoxicação por etilenoglicois: exames podem ajudar no diagnóstico

Temos acompanhado, com perplexidade, as suspeitas de intoxicação pela substância química etilenoglicol, chamada pela nossa imprensa de “doença misteriosa” ou “Síndrome Nefroneurotóxica”. Não sem razão. Os etilenoglicois são um tipo de álcool usado, por exemplo, em sistemas de refrigeração de motores de automóveis, mas que jamais deve ser ingerido, por ser tóxico. Nos Estados Unidos, no ano de 2002, houve 5816 casos de intoxicação por etilenoglicol relatados. Na maior parte dos casos, a ingestão não foi intencional.
É importante frisar que a apresentação clínica é muito inespecífica e é desafiador, muitas vezes, diferenciar esse tipo de intoxicação daquela causada pelo etanol comum, presente nas bebidas alcoólicas em geral. Isso exige alto grau de suspeita médica, uma vez que não é habitual a realização de exame toxicológico para etanol e outros álcoois nas emergências dos hospitais. Contudo, alguns outros exames laboratoriais podem ajudar e estão disponíveis em todos os laboratórios.
O primeiro deles é a análise de gases no sangue, chamada de gasometria. Não vale a pena entrar em detalhes, mas o exame poderá revelar um sangue ácido (acidose metabólica) com aumento de lactato (a mesma substância que se eleva quando fazemos exercícios). Também há alterações nos elementos iônicos (como cálcio, sódio e potássio) e na osmolalidade do sangue.

 

Outro teste disponível é o exame de urina de rotina. O organismo metaboliza o etilenoglicol e nesse processo é gerado ácido oxálico, formando cristais de oxalato de cálcio que se depositam nos tecidos e nos rins e podem ser visíveis na urina, ao microscópio.

 

Acredito que, a partir desse triste episódio, vários alertas são importantes:

 

1) O etilenoglicol é um álcool que deve ser manipulado com muita cautela, sempre bem identificado e fora do alcance de crianças e animais. Por ser incolor, sem cheiro e com sabor um pouco adocicado, é ainda mais perigoso e difícil de perceber;

2) Ao passar mal subitamente, ou alguém da sua família, tudo o que foi consumido nas últimas horas deve permanecer bem guardado e rotulado, de preferência na geladeira, para ser analisado futuramente, se necessário;

3) O paciente terá sintomas semelhantes ao de uma bebedeira, mas se tiver ingerido apenas etilenoglicol, não terá “cheiro de álcool”.

 

Em caso de suspeita, na ausência de exame toxicológico específico, exames de laboratório (gasometria, lactato, íons, urina e outros) disponíveis em qualquer hospital poderão dar pistas importantes e ajudar o médico na emergência. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, mesmo se houver complicações com lesões renais e neurológicas, é provável que haja completa recuperação.

 

* Luisane Vieira é médica patologista clínica, diretora técnica do Laboratório Lustosa e diretora regional da SBPC/ML em Minas Gerais

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